A polícia do Rio recebeu nos últimos anos diversas denúncias sobre o tráfico na comunidade da Vila Cruzeiro, que compõe o Complexo da Penha.
As denúncias mostram como funcionaria o crime em um dos quarteis generais da facção criminosa Comando Vermelho.
Uma delas descreve a realização diária e em todos os horários, um feirão de drogas que ficam expostas em uma banca com os traficantes gritando e anunciando a venda de entorpecentes.
Armados, os bandidos ameaçam e coagem moradores e param veículos que eles não conhecem.
Tendo operação, eles fogem pulando muros e lajes das casas.
A venda de drogas ocorreria, por exemplo, próximo da antiga base da UPP Parque Proletário, os bandidos usando pistolas e fuzis traficam crack, maconha, cocaína e loló, incluindo menores de idade.
Há informes de barricadas de concreto, latões de lixo e ferros por várias vias.
O chefão do tráfico local, vulgo Doca ou Urso, só costuma ser visto aos finais de semana quando ocorre o famoso Baile da Gaiola.
Um de seus esconderijos era uma casa branca, cercada por vários bandidos armados.
Um outro é um imóvel de dois andares com portão e grades pretos onde haveria uma lona de piscina pendurada para dificultar a visão para dentro.
Outro líder do crime na favela, Pedro Bala, costumava se esconder na residência da namorada que fica rodeada de seus seguranças armados.
Vários traficantes de outras localidades dominadas pelo CV buscam refúgio na Penha como DT, que comanda a Kelsons, que também fica na Penha, e Faustão, que atua no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Informações de que bandidos do Jacarezinho e do Complexo da Maré também circulam pelo local.
Outro que tinha esconderijo na Vila Cruzeiro era o falecido Piranha do Castelar, em Belford Roxo, que ficava em um prédio de três andares com 15 comparsas armados com fuzis e granadas.
O bandido tinha um comércio de quentinhas na favela usado para lavar o dinheiro do tráfico.
Criminosos de outros estados também escolheram a Vila Cruzeiro para se esconder.
Um deles era oriundo de Manaus que ganhou queima de fogos e baile funk pelo seu aniversário.
Quem também andou por lá foi o criminoso capixaba Marujo. Ele possuía vários veículos e vinha semanalmente ao Rio buscar armamentos e drogas. O transporte era feito por Uber.
Marujo era matuto e atuava no envio de armas pesadas como fuzis, além de drogas em grande quantidade.
Por ser da facção Primeiro Comando de Vitória (PCV), ele se aliou ao CV para atacar o PCC.
Como forma de demonstração de poder, os bandidos da Vila Cruzeiro teriam expulsado o ponto final de duas linhas de ônibus para montar uma boca de fumo com menores armados e ainda instalou barricadas.
Bailes funks são realizados com dezenas de criminosos armados com fuzis traficando drogas, inclusive lança perfume. Tem evento que começa no fim da noite e vai até as 10h e as vias ficam interditadas com barricadas.
O som é altíssimo e as músicas fazem apologia ao crime e a sexo.
Outro ponto de venda de drogas, traficantes armados e olheiros vigiando fica perto da estação do BRT e também próximo do Parque Shangai.
Os traficantes da Vila Cruzeiro fazem uso de uma empresa de internet e TV a cabo clandestina e impõem esse serviço aos moradores.
Os bandidos cortaram os cabos das operadoras legalizadas e impediam os funcionários de fazerem os reparos para que as pessoas usem o serviço clandestino deles.
Criminosos baleados costumam ser atendidos na própria favela com auxílio de enfermeiras. Os locais ficam sob vigílias de olheiros armados com pistolas e munidos de radiotransmissores.
Há traficantes que instalaram câmeras em suas moradias para monitorar quem entra e quem sai.
Quem também estaria na Vila Cruzeiro é uma criminosa conhecida como ‘Princesinha do tráfico’, que era proprietária de uma loja de moda íntima. Ela seria cunhada do traficante DT da Kelsons.
Haveria na localidade da Vacaria um cemitério clandestino do tráfico de drogas.
Os criminosos da favela são suspeitos de diversos homicídios em que as vítimas são esquartejadas e têm os corpos incendiados.
Entre as vítimas estavam três rapazes que foram até o local tentar resgatar um veículo.
O traficante Doca aliciaria menores de 12 anos para entrar para o crime, segundo denúncias.
Em uma verdadeira fortaleza, com muro de pedra e portão de chapa branca, vivia o contador da quadrilha, conhecido como Fred, que também atua como matuto (fornecedor)
vendendo armas e munições importadas para diversas comunidades. O suspeito seria muito discreto no seu dia a dia.
A mansão pertencia a um chefe do tráfico local que, após ser preso, migrou para a comunidade do Parque União, no Complexo da Maré.
Fred venderia munições oriundas do Paraguai para Rocinha, e localidades de Bangu, Niterói e São Gonçalo. Ele também faria encomendas de cargas de maconha e cocaína.
Doca teria ordenado através de seu filho que apenas um candidato poderia fazer campanha política na comunidade.
Quem descumpre a regra poderá sofrer punições severas.
Os criminosos teriam executado um homem chamado Felipe que havia matado a facadas sua esposa Juliana.
Os traficantes não têm nenhum respeito pelos moradores. Eles fazem o uso de drogas na frente de crianças e jogam a fumaça da maconha no rosto das pessoas.
Há relatos de bandidos circulando de motos e carros roubados e de informes que poderão atacar as bases das UPPs.
Denúncias apontam que, por ordem do tráfico, integrantes de uma mineradora
estariam expulsando moradores de uma área particular com restrições ambientais.
Os criminosos ameaçariam os proprietários e realugariam os imóveis para outras pessoas.
Houve denúncia também que a associação de moradores local estava em conluio com os traficantes.
O representante era braço direito de Doca e foi o bandido quem teria determinado sua eleição.
Atua também no local um traficante que foi o responsável pelo sequestro e morte de um policial civil e de um bombeiro.
Esse bandido, junto a um comparsa, vende gelo nos bailes funks e os comerciantes só podem comprar com eles. Esse criminoso ainda vende diplomas do ensino médio falsos.
Há ainda na Vila Cruzeiro um homem ligado aos traficantes que falsifica bebidas alcoólicas, como uísque.
Um bandido de vulgo Larle recebia de duas a três vezes por semana carregamentos de drogas de um traficante dos morros da Mangueira e do Tuiuti.
Os traficantes controlariam ponto de mototáxi. Os trabalhadores precisam pagar uma taxa aos bandidos para poder circular.
Uma barraca de camelô vende cargas roubadas por traficantes, como biscoitos.
Os traficantes também pagam aluguel de imóveis para esconder armas e drogas.
Rolou até uma denúncia em que os traficantes da Vila Cruzeiro estavam aguardando uma invasão por parte dos criminosos da Cidade Alta.
FONTE: Relatório da Polícia Civil do Rio de Janeiro disponível no site Jusbrasil